quinta-feira, 22 de março de 2012

Festa de Alheira?? Não, dia da Cidade de Tete!!

Ontem, quando às oito da manhã comecei a ouvir música e muitas vozes, acordei a pensar: "Hoje é o dia da festa de Alheira!!". Mas não, apesar das semelhanças, ontem foi o dia da Cidade de Tete, que festejou 53 anos de vida... Ao longo do dia lembrei-me muitas vezes da minha terra, apesar das semelhanças inicialmente observadas se terem transformado em curiosas diferenças.
No dia anterior, começaram os preparativos: enfeitar as ruas e a ponte com bandeiras amarelas, verdes, vermelhas e brancas (as cores da bandeira moçambicana) e pintar as passadeiras e traços nas estradas. Trabalho meticuloso nesta cidade, que envolve uma fita métrica, várias barras de madeira e latas de tinta de interior... 





Em Alheira começamos por ouvir música transmitida por várias colunas espalhadas pela "aldeia"; em Tete a música vem de um palanque montado bem à porta do meu prédio.

Em Alheira, logo pela manhã, começa a Missa, que também é transmitida pelas colunas; em Tete, começam os discursos políticos, com representantes da Organização da Juventude Moçambicana, da Organização da Mulher Moçambicana, do Governo Provincial e do Conselho Municipal, todos sentados no palanque montado bem à porta do meu prédio. Todos eles a apelar à "moçambicanidade" dos moçambicanos, à luta contra a "pobreza absoluta", com vivas à Frelimo e todos a gritar: "Wakula Nhungué!!" ("Tete é uma cidade crescida", mais coisa, menos coisa).



Em Alheira, depois da missa, volta a música nos altifalantes; em Tete, grupos de diferentes bairros, congregações, organizações, cantam, dançam e tocam batuques em frente ao palanque montado bem à porta do meu prédio.



Em Alheira, faz-se a procissão, com andores e fanfarra; em Tete também, mas são os militares que tocam e a procissão é um pouco diferente...


Uma fila de camiões, carrinhas, táxis, máquinas de trabalho, vai passando à frente do palanque, a mostrar a todos o que se faz na e pela cidade... Então, pode ver-se, por exemplo, um camião que mostra o trabalho da recolha do lixo, que envolve carrinhos de mão, pás e máscaras:


Ou outro que mostra como se utilizam duas determinadas máquinas, pertença do conselho municipal:


Depois do almoço, quando tentamos descansar um pouco de tanta folia, é só pousar a cabeça na almofada para logo começar a grande corrida de motas da cidade! São motas, mas parecem aviões! A adrenalina começa a disparar, entre fãs a aplaudir o seu campeão e polícia a controlar a população descontrolada que ameaça colocar-se no meio da pista, onde os atletas atingem velocidades estonteantes de 40km/h!



Acabada a corrida, recomeça a música. Até que, finalmente, anoitece... "amanhã é dia de trabalho", pensamos, "portanto a música vai acabar cedo"... Era meia noite e ainda havia concerto ao vivo, no mesmo palanque, montado bem à porta do meu prédio!

sábado, 17 de março de 2012

Cunbibio

Com doze horas de trabalho por dia, durante seis dias por semana, a convivência com os amigos é muitas vezes esquecida... Portanto, numa tentativa de nos tornarmos o mais normal possível em termos sociais, aos sábados, de quinze em quinze dias, juntamo-nos para um jantar convívio.

Condições de Admissão? Ter entre 30 e 40 anos e não pertencer à classe dos "Grandes Chefes".
A desculpa? Conhecermos melhor pessoas que também vivem e trabalham em Tete.
O objectivo? Tornear a solidão que se pode sentir quando estamos tão afastados de casa.
O resultado final? Muitas garrafas de cerveja, de vinho e de whisky vazias e espalhadas no final da noite.

Há duas semanas, como forma de boas vindas ou castigo (não sei bem), calhou-me a mim cozinhar para todos. Preparei um fantástico Arroz à Valenciana, vegetariano, claro! Apesar de um pouco torrado, o mais grave foi mesmo a quantidade confeccionada... Nove pessoas a comer e ninguém conseguiu repetir. Valeu-nos o queijo e o pão para ajudar a absorver o vinho tinto e demais líquidos consumidos.


Passamos, depois do repasto, ao alpendre, a melhor parte da casa! Conversamos sobre tudo e sobre nada, rimos muito, sobretudo.


Acreditem, se a fotografia tivesse sido tirada no domingo de manhã, não estariamos tão bonitos!

Para hoje foi prometido um jantar árabe, com couscous e dança do ventre! A ver vamos...

sexta-feira, 16 de março de 2012

Uma longa cerimónia

Na madrugada de quarta para quinta feira da semana passada houve falecimento no prédio... A minha vizinha do lado morreu... A partir das 4h da madrugada começaram a ouvir-se choros que só pararam no domingo, três dia depois!

Os familiares começaram a chegar logo de manhã, as cadeiras foram sendo colocadas ao longo do corredor do meu andar, em frente à minha porta, debaixo da minha janela. Nas primeiras três noites não se deitaram, foram ficando sentados nas cadeiras. Nas seguintes, colchões foram sendo colocados nos espaços livres no exterior para se acomodarem os hóspedes.

Num prato à entrada da casa íam sendo depositados uns trocos por quem aparecia, para ajudar a família a pagar o funeral, a alimentar dezenas de pessoas durante tantos dias, para se poderem comprar uns refrescos e umas cervejas.

Na quinta feira o corpo ficou em casa. As mamãs todas a entrar e a sair, a arranjar o corpo, a chorar a defunta. O dia todo, a noite toda... Com cada mamã vem pelo menos uma criança, bem pequenina. Choram também pela noite dentro e pelo dia fora, de fome, de cansaço, de doença, de tristeza, nem sei...

Na sexta feira foi o funeral! Todas as pessoas na caixa das carrinhas foram meus vizinhos por uns dias, todos estiveram no corredor do prédio.


Com esta imagem eu pensei, é hoje que posso entrar em casa sem ter de saltar por cima de pessoas, arrastar vinte cadeiras, é hoje que vou descansar sem choros, sem conversas noite dentro por baixo da janela que só tem rede mosquiteira e nenhum vidro, sem ter de acordar antes das cinco da manhã com a preparação do mata-bicho... Alma ingénua a minha! Uma cerimónia destas não acaba em dois dias, seria uma monstruosa falta de respeito!

No domingo de manhã, bem cedo, lá pelas 6h, as mulheres começaram a cantar, a despedirem-se... e com a música, ouviram-se também os últimos choros a lamentar a perda.

Hoje é sexta feira, os três dias já passaram (normalmente, as cerimónias demoram três dias), os sete dias já lá vão, e ainda há cadeiras pelo corredor, ainda há colchões no exterior, ainda há familiares e crianças de longe, ainda há choros, ainda...

quarta-feira, 14 de março de 2012

Estou a trabalhar!

Bons dias...

Para quem leu a notícia publicada ontem à tarde no blog, esqueçam!!! Mensagens "anónimas" (:D) avisaram-me que seria melhor fazer uma revisão ao texto publicado!
Para quem não leu, óptimo!! Lê hoje e continua...

Então, (re)começando...

Comecei há uma semana como Assistente Administrativa do Presidente de um Hotel em Tete. Acordar cedo passou a ser uma obrigação, portanto, e apesar de sempre acordar cedo, agora custa muito! Depois de um café, lá começam as funções a que o posto obriga, desde pedir aos funcionários chávenas limpas para o gabinete (temos uma extraordinária Nespresso) até aprender a trabalhar com o software de contabilidade e reservas...
Diz o meu recente patrão: "os bebes demoram 1 ano para aprender a andar, portanto não tenhas pressa!". E eu resolvi seguir à risca as suas instruções, com calma, um dia depois do outro...
Quem sabe o futuro não me reserva um hotel, só meu, desde que, claro, em qualquer outra parte do mundo!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A ilusão de não haver tempo

Domingo, dia por excelência para percorrer mais umas centenas de quilómetros de terra! 500km para almoçar em Ulongué, muito perto da fronteira com o Malawi.
Não que o restaurante ou a comida o mereçam especialmente, não que a estrada de alcatrão demasiado esburacada relaxe, não que a paisagem seja diferente de outras já vistas... Mas por uma estranha vontade de conhecer um pouco mais, de tentar perceber como, ou porque, é que se vive num espaço que varia, no espaço de doze meses, entre o mais árido e o mais húmido possível, num tempo que parece não existir, nem passado nem futuro, mas parado... Parado não porque não haja vida, porque a há, e muita! Mas porque não sabemos de onde vêm nem para onde vão todos aqueles que caminham pela berma da estrada, ao longo da qual não se avistam locais que possam constituir as suas metas. Porque mesmo no centro da vila, com tanta gente e casas e carros, não se percebe o que fazem, além de viver, cada dia parecendo demasiado igual a um outro dia qualquer...

Lá vamos percorrendo caminho...





Numa curva e num local onde a estrada estreita um pouco, avistam-se cerca de vinte crianças que, no meio da rua, acenam aos carros que passam, de mãos estendidas, a pedir. Só quando chegamos percebemos, estão a colocar terra numa série de buracos e vão pedindo a quem passa ajuda pelo trabalho executado...

De repente, começa a chover. De uma forma tão repentina e feroz como rápida, ao ponto de toda a água que cai imediatamente se transformar em vapor, no contacto com o alcatrão que ferve ainda por causa do sol que acaba de ficar escondido. O resultado só ajuda a alimentar a ilusão de estarmos a percorrer terras perdidas...


 E, quase sem darmos conta, chegamos ao nosso destino! Ulongué...
 Sentados na esplanada do restaurante,


enquanto bebemos uma Manica super fresca e comemos batatas fritas e ovos/bife, observamos o que nos rodeia: um casal de macacos enjaulados em dois metros quadrados de espaço quase sem luz; duas meninas que vão passando, uma de bicicleta, outra a pé com uma boneca na mão; uma pick-up amarela rebocada por uma carrinha branca, estrada acima e estrada abaixo, que passaram por nós seis vezes enquanto lá estivemos sentados; o empregado que aparece de vez em quando e arruma um prato, um copo, um talher de cada vez e que vai atirando o lixo para o canteiro em frente... tudo calmo, silencioso, sem pressa...

Antes de voltarmos para casa, e depois de, com a ajuda de uma garrafa de plástico à qual cortamos o fundo, termos abastecido o carro com gasóleo que levamos connosco num bidão (não há onde abastecer os depósitos, só atravessando a fronteira para o Malawi), uma volta de carro pelo centro da vila.




sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Muita animação num prédio só!

Em sítios onde o sol se põe às 18h30 e onde em muitas casas ainda não há luz eléctrica é normal começar a ouvir-se silêncio muito cedo... nos mesmos sítios, em contrapartida, o sol acorda às 05h30 já quente, fazendo com que às 06h00 já tudo corra e se agite pelas estradas fora... é num destes sítios que eu moro...

Se Moçambique é um país barulhento desde muito cedo, Tete é um absurdo de movimento! Há carrinhas, camiões, motas, bicicletas, todos a percorrer meia dúzia de estradas, o dia todo, sem parar... pelos passeios, ou, à falta deles, encostadas aos prédios, pessoas, muitas, a subir, a descer, a vender, a descansar, a comer, a pedir, a correr, a chamar, a gritar! Impressionante... não se pára nesta cidade! Igual ao país, igual à cidade, são todos os cantos e recantos que por aqui existem... o meu prédio não é excepção!

São dois andares com 14 casas pequenas em cada um! Eu, confesso, e por motivos que não vou aqui referir, ainda não tive coragem de subir ao segundo andar. Moro na segunda casa logo ao chegar ao primeiro andar, e por aí me fico, por ser suficiente! Mesmo assim, no pequeno mundo deste 1º andar há obras intermináveis em duas ou três casas (apesar de não ter a certeza absoluta de onde vem o constante barulho de martelos logo de manhã, que ecoa pelo prédio todo), há alfaiates (já encomendei trabalho, estou à espera), há padeiros (foram-me oferecidos 3 pães na abertura), há cabeleireiros (a funcionar em cadeiras colocadas nas escadas, cuja especialidade, como de todos os outros, é colocar mechas de cabelo falso)... enfim, vida, trabalho, barulho! 

Além de todo este comércio, há também famílias minhas vizinhas, evidentemente bastante numerosas e com muitas crianças! Pelo primeiro andar são perto de quinze crianças, metade das quais com idades entre os 1 e os 6 anos. Como não tem idade para ir à escola, passam o dia a brincar no corredor, com 1m de largura e 50m de comprimento. Correm, gritam, choram, jogam à bola, cantam, comem, tudo pelo corredor fora... Durante todo o dia ouvem-se as empregadas ou os familiares a gritar por uma ou por outra, e logo uma criança ajuda na berraria não vá o chamado não ouvir e não responder ao apelo... Lisa!!!!! Camila!!!!! Abibe!!!!! Enfim, vida, muita vida, expressa a plenos pulmões... 

Há quatro meses, no dia do meu aniversário, resolvi oferecer-lhes chupa-chupas e chocolates... Desde então, sempre que me veem sair ou chegar, pedem-me "tia, dá doci!!!!" de mãozinhas estendidas (por aqui somos chamados de "mana", "tia/mãe" e "vovo", depende da idade... ao que parece, eu já vou em tia!)... e quando eu lhes digo que não tenho, avisam-me "então vais comprar", ou quando digo que não porque senão ficam doentes, respondem logo "não, não ficamos!" ou se, de vez em quando, cedo e vou buscar doces à cozinha (comprei uma saco de doces só para lhes ir dando) e dou um a cada um, refutam "para mim, dois!!"... 

Deixo-vos com as carinhas de quatro destes meus amigos, doces, brincalhões, sorridentes, bem-dispostos, barulhentos, como só as crianças conseguem ser...

          






sábado, 18 de fevereiro de 2012

Declaro aberta mais uma sessão...

Pois é... regressei a Tete! E assim volto a abrir as portas desta minha casa!

A cidade continua igual, as pessoas são as mesmas, as infra-estrutras permanecem de pé! Penso que seja assim sempre que voltamos a casa, seja ela onde for, sentimos a permanência das coisas e invade-nos uma agradável sensação de pertença e conforto.

Depois de alguns dias a dormir todas as horas perdidas em aviões e aeroportos, a descansar de tanto calor e humidade, a limpar todos os cantos da casa, sinto-me pronta para recomeçar a partilhar os longos dias vividos em Moçambique!

Beijinhos e bem vindos!