sábado, 5 de novembro de 2011

Reportagem semanal

Finalmente um pedacinho de tempo para escrever uma mensagem mais relaxada... É que, desde que decidi voltar a ser estudante, tenho tido imensos trabalhos para fazer! O resultado é que de tanto pensar em matrizes e estratégias de negócio o meu cérebro fica incapaz de comunicar o dia-a-dia...

Mas acho que hoje vou conseguir!

Vou começar pelo meu aniversário, só para dizer que de tanto pensar que o jantar para o qual fui convidada era para mim, acabei a sobremesa com três garrafas de champanhe na mesa, um enorme e delicioso bolo de chocolate (e não fui eu que fiz!) cheio de velinhas à minha frente e um coro de 30 vozes (quase todas desconhecidas) a cantarem os parabéns! Soube muito, muito bem!

Domingo foi dia de passeio! Tinha ouvido falar de uma nascente de água a uns 100km de Tete, seguidos de umas horitas de caminhada a subir a montanha, então lá fui! Nem sei como descrever... senti-me das últimas sobreviventes num planeta destruído por um ataque de extra-terrestres! Tudo queimado, árido, destruído, em ruínas... Algumas casas com uma ou duas famílias espalhadas ao longo da montanha, que não falam português, que para terem acesso a água ou alimentos precisam de caminhar mais de cinco horas.



Este é um dos aspectos que me continua a surpreender em Moçambique! Em todo o lado há pessoas a viver, mesmo que seja no topo de uma montanha, sem acessos, longe de tudo! E em todos estes lados, ruínas de construções do tempo colonial!
Depois de uma hora a subir, cheguei a mais uma povoação! Comecei a ouvir gritos de crianças e pensei, estes gritos só podem ser de crianças que estão a brincar com água, cheguei à nascente! Aqui senti-me na Terra do Nunca! Dezenas de crianças começaram a correr na minha direcção e a apontar para cima, no meio da montanha, entre pedras e bananeiras, a assinalar a tão ansiada nascente! Não vi adultos, só crianças! E uma subida demasiado íngreme! Mas como não tinha água e a temperatura estava alta tive mesmo de subir para beber qualquer coisa...


Quarenta minutos depois, lá cheguei, arranhada, cheia de terra, cansada, cheia de sede... e o que encontrei foi um fio de água com mais terra do que eu a escorrer pela montanha abaixo! Enfim, tive que beber, mas o que valeu mesmo foi a paisagem, daqui bem mais verde. Mais um aspecto que me surpreende e muito; este país é, todo ele, terra a perder de vista...


A moral da história? Fiquei tão cansada e desidratada que nem sei qual será...

sábado, 29 de outubro de 2011

Parabéns!!

Para mim... 31 anos!! Tantos, dirão uns... Ainda tens muito para viver, dirão outros... Muitos ou poucos, são os meus e são esses que festejo hoje!

Pelo segundo ano consecutivo, festejo o meu aniversário no Verão! Escrevo neste momento, oito horas da manhã, com uma ventoinha bem apontada para não começar a suar mal completo 31 anos de vida! E pelo segundo ano consecutivo faltam-me a família e os amigos para os festejar!! Então, o que é que vou fazer hoje?

Primeiro, um bolo de chocolate! Depois de muito procurar, lá consegui encontrar uma forma de bolos e fermento para o confeccionar (este custou a encontrar porque, imaginem!!, o fermento aqui não vem numa lata vermelha e com "Royal" escrito!!!), portanto vou começar o meu dia mesmo por aí! Com cobertura de chocolate!

Não há espumante nem champagne para brindar, apenas umas bebidas gasosas sul-africanas de sabor muito duvidoso, pelo que a cerveja, bebida igualmente gaseificada e que se bebe estupidamente fresca, vai servir lindamente!

No fim do dia tenho um jantar, em homenagem a alguém que chegou a Tete ao fim de algum tempo ausente por motivos menos felizes, que eu não conheço, com dezenas de pessoas que nunca vi! Vou fazer de conta que o jantar é para comemorar o meu aniversário e que todos estão reunidos por mim (perdoem-me o egoísmo)! Não é Indiano nem Japonês, mas espera-me uma pizza vegetariana deliciosa!!

Nos entretantos, decidi oferecer-me uma prenda, como costumo fazer, aliás, todos os anos... Este ano vai ser um livro! Há uma pequena livraria em Tete, com poucos livros, mas alguns interessantes, ou pelo menos, actuais. Tem, por exemplo, uma colecção dos últimos livros de alguns vencedores do Prémio Nobel da Literatura, como J.M. Coetzee e Jean-Marie Gustave Le Clézio. Tem também uma grande colecção de livros de escritores moçambicanos e angolanos e alguns livros mais recentes de escritores portugueses, como António Lobo Antunes. Depois de ter lido já vários livros de diferentes autores moçambicanos (Paulina Chiziane, Ungulani Ba Ka Khosa, João Paulo Borges Coelho, José Craveirinha, Mia Couto) e angolanos (José Eduardo Agualusa, José Luandino Vieira, Ondjaki, Pepetela), decidi presentear-me com um laureado sul-africano, para não fugir à máxima "Em África, lê autores Africanos"! Coetzee foi a minha escolha!

Um beijinho grande para todos...

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Lojas de roupa

Ofereceram-me roupa hoje, calças de ginástica, para ser mais exacta! Passo a explicar...

Na sexta-feira perguntei a uma senhora, colega das aulas do ginásio, onde poderia comprar um fato de treino em Tete. Sim, porque agora temos um professor sul-africano espectacular que me põe a suar em bica no final de cada aula, e o meu único par de calças já não aguenta tanta carga!!
Nunca imaginei eu que pudesse ser uma rapariga com tanta piada, mas a verdade é que a referida colega se desatou a rir... porque há apenas uma loja de roupa em Tete, onde se vendem T-shirts e algumas camisas, mas não fatos de treino! Então onde é que ela compra o material de desporto? Aqui:


Num dos mercados da cidade existe a secção das CALAMIDADES, ou seja, bancas (ou espaços, vá) onde se vende roupa em segunda mão vinda sei lá eu de onde!!!

Ontem não consegui ir ao ginásio porque a fechadura de casa estragou-se e tive de esperar duas horas até que um senhor serralheiro me viesse salvar da clausura em que me encontrava, o que só aconteceu bem depois da hora da aula... Assim, hoje, no final da aula, eis que a minha colega me ofereceu dois pares de calças que ela comprou nas calamidades no fim de semana! Muito simpática, não?

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Uma noite infernal!

Caros,

Hoje fica registado um ardente desabafo...
Depois de vários dias com  temperaturas entre os 30º (noite) e os 45º (dia), tudo aquece, muito! A minha casa não é excepção, pelo que a única forma de se conseguir dormir é com o ar condicionado ligado. Ora esta noite o AC resolveu não funcionar, sem qualquer explicação ou causa para tal! Ainda abri a porta da varanda do quarto e as janelas da cozinha, numa tentativa desesperada de provocar qualquer corrente, mas até o ar estava preguiçoso demais para se movimentar... O resultado foi uma noite infernal a transpirar e a rebolar pelo colchão, sempre em busca de um pedacinho de lençol mais fresco e menos húmido.
Hoje de manhã, assim que acordei, e já a preparar-me para procurar algum técnico de AC e comprar pilhas para o comando, resolvi experimentar mais uma vez o pequeno e mágico botão do "power"... funcionou, agora!

sábado, 22 de outubro de 2011

A cozinha em pormenor!

Decidi "mostrar" um pouco mais da minha casa.

Hoje vou falar da divisão onde se passa mais tempo, a COZINHA! Aqui se cozinha (como o próprio nome indica), se come, se estuda, se conversa, enfim, faz-se quase tudo na minha cozinha! Penso que não será muito diferente de outras cozinhas, noutras casas, em diferentes partes do mundo!

Então... a minha cozinha tem dois armários, um com utensílios e outro com comida.

Como utensílios básicos há duas panelas, três tupperware (ou taparueres, palavra que nunca me parece bem escrita) e quatro pratos de cada tamanho. Também neste armário guardo as garrafas de água, muitas, de 1,5L, pois com os 45º que já se sentem durante o dia são bem precisas!
Já por aqui se começam a adivinhar algumas dificuldades... Então e quando precisamos de aquecer sopa (não há microondas), fazer arroz e um estufado de legumes para o jantar? É ver aqui a cozinheira a fazer o arroz, passá-lo para uma caixinha de plástico, lavar a panela, limpar e aquecer a sopa, enquanto na outra panela se vão estufando uns legumes!! Um rodopio entre o forno e a banca!!
Trouxe uma cafeteira de Portugal, o objecto mais bonito desta cozinha, mas infelizmente não há café nesta cidade... fica para enfeite!
Tenho ainda uma varinha mágica e uma chaleira eléctrica, muito utilizadas!

No armário da comida, podem ver-se latas de cogumelos e feijão, massa, arroz e bolachas de água e sal, guardanapos de papel e toalhas de cozinha. Caju e amendoim torrado nunca faltam! Há também duas pegas feitas pela minha avó e que viajaram comigo desde Portugal! Obrigada!!

No frigorífico estão guardados os restantes bens alimentares, iogurtes, manteiga, queijo, ovos e legumes frescos. Aqui recomeçam as dificuldades... todos os dias se cozinha por aqui, duas refeições por dia! E todos os ingredientes disponíveis são:
-cogumelos e feijão
-massa, arroz e batatas
-ovos
-cebolas e alhos
-tomate
-cenoura
-pimento
-repolho
-fruta (depende da época: banana há todo o ano, agora há muita laranja e estão a chegar as mangas).

E é tudo! Há vários mercados de rua e dois supermercados, mas estes legumes são todos os que se conseguem!

Assim, grande parte do tempo passado na minha cozinha é a multiplicar recipientes, a inventar receitas para que meia dúzia de ingredientes pareçam diferentes todos os dias! E a melhor parte é que se consegue! Claro que tenho também frascos com malaguetas e com achar (delicioso, feito com mangas verdes e muitos temperos), pousados em cima do balcão que ajudam a tornar mais quentes, digamos, muitos dos pratos confecccionados na minha cozinha!

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

(Mais um) dia solene

Mais um dia solene se comemora hoje em Moçambique: 25 anos passaram desde a morte de Samora Machel! O Presidente Guebuza prometeu mais uma vez que as investigações para apurar os verdadeiros motivos do acidente não pararam nem vão parar!
Num dia assim não há tempo para que o povo se dedique a tarefas tão prosaicas e desprovidas de significado como trabalhar ou estudar. Por isso mesmo, foi decretado feriado extraordinário. Em todas as capitais de província foi construído um monumento com uma estátua de Samora Machel. Ou pelo menos essa era a ideia! Em quase todas aquelas capitais, permanece um espaço em obras com uma estátua envolta em plástico (que, apesar de não se ver muito bem, acredito ser de Samora Machel) deitada no chão...
Em Tete, num belo jardim por baixo da ponte Samora Machel, vê-se a construção de um monumento, já pintado com as cores da bandeira nacional, e uma estátua de uns bons três metros de altura encostada a um tapume. Em volta deste (quase acabado) monumento, dezenas de pessoas esperam... Penso que pelo solene momento em que a estátua seja erguida! Vendem-se pipocas, bolachas, amendoim torrado... conversa-se à sombra de uma frondosa mangueira... e espera-se...
Mesmo que não se consiga elevar a grande figura de Samora Machel hoje, pelo menos o povo descansou e debateu importantes assuntos. Assim, amanhã, que hoje já não vai dar tempo, recomeça-se a lutar pelo desenvolvimento de Moçambique!

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Bons momentos

Salama! Que saudades tinha eu de ouvir falar macua!

Estive de férias, mas com o único objectivo de vos mostrar um pouco mais desta minha casa que é Moçambique. Felizmente, esta reportagem incluiu uma semana a passear pelas margens do Índico para vos guiar pelas praias mais bonitas do mundo com o mar a 27ºC, por património mundial da Unesco a ser lentamente recuperado, por estradas de terra vermelha acompanhadas por enormes cajueiros, por outras estradas já alcatroadas que funcionam essencialmente como tanque de esfregar roupa, por vestígios da passagem dos portugueses, há muitos anos, a serem substituídos pela presença de "outros brancos"...

Comecei em Fernão Veloso, com praias que aproveitam a enorme baía de Nacala, cidade que alberga um dos maiores portos naturais do mundo!


Aqui se estão a construir um aeroporto internacional e um porto novo, tudo por causa do carvão que se explora na minha cidade, Tete!

Continuei um pouco para sul e fui ter às Chocas Mar, mais precisamente à praia da Carrusca!


São quilómetros de areia branca e mar azul, um paraíso à moda antiga! Lagosta, camarão tigre e camarão jumbo, tubarão, garoupa, peixe papagaio, peixe pedra, caranguejo... um não mais acabar de belos e, aparentemente, saborosos animais aquáticos, a preços irrisórios! Lá consegui arranjar uma matapa de mandioca e um caril de vegetais para me alimentar. Pelas dunas, bungalows virados para o mar, com alpendres decorados com camas de rede e enormes coqueiros!
Sobram apenas três pedaços de terra, tudo o resto foi já comprado, "por brancos". A ilha que se vê ao fundo na fotografia foi comprada, "por um branco", e lá está a ser construído um restaurante!
Por aqui há também uma das que clama ter sido a primeira igreja a ser construída em Moçambique, com um poço de água ao lado que serviu para saciar a sede de tantos navegadores, segundo reza a história! A outra, e parece-me que mesmo a primeira, está na Ilha de Moçambique, mas já lá vamos...


O único motivo pelo qual não deixei a Carrusca com tristeza foi por ir para a Ilha de Moçambique, pedaço de terra mágico, declarado Património Mundial da Unesco em 1993, um ano depois do final da guerra civil.
Entramos na Ilha, que tem 3,5km de comprimento por +/- 400m de largura, por uma ponte com apenas um sentido (de cada vez!) e, depois de a atravessar, apercebemo-nos de uma pormenor: a Ilha está dividida por uma linha, ficando a norte a Cidade de Pedra e Cal e a sul a Cidade de Macuti. Dos 17 mil habitantes da Ilha, quase todos estão na parte sul.


Na Cidade de Pedra e Cal, ao estilo europeu, há edíficios senhoriais, pé direito altíssimo, imponentes portas de madeira... Muitos ainda abandonados, outros já restaurados e tranformados em hotéis ou restaurantes, mas todos já comprados. Todos os habitantes e repartições do estado vão ser recambiados para o continente e a ilha vai servir exclusivamente para turismo.

A Cidade de Macuti (macuti refere-se à cobertura das casas, em palha) foi construída abaixo do nível das águas do mar, porque foi o local de onde toda a pedra e terra necessárias à construção da Cidade de Pedra e Cal foram retiradas. Como não há saneamento nem canalizações, esta parte da Ilha exala um cheiro intenso que se sente por toda a parte, as pessoas usam a praia como casa de banho, lavandaria, cozinha...

Porque é que sinto a Ilha tão especial? Não sei se consigo explicar... não sei se pela história que encerra cada pedra que cai das paredes, se pela mistura de costumes e gentes em cada esquina, se pela tentativa de equilíbrio da própria terra entre o obscuro degradante e decadente e a luminosidade de um renascer cultural e social... Porque entre ruínas se veem museus, porque no meio de praças com calçada portuguesa se veem grupos de mulheres pintadas com msiro, porque num terraço iluminado por velas jantamos a ver nas ruas crianças esfarrapadas a jogar ao berlinde...

Ficam algumas fotografias...







quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Vai um piquenique?

Dando continuidade à rubrica "sinaléptica moçambicana" (ainda com consoantes mudas), deixo-vos duas fotografias de uma das placas que, a par com outras a indicar a venda de galinhas, mais vi a caminho da Beira. Deixei de contar quando cheguei às 15!



Porquê duas fotografias? Para que possamos, em conjunto, analisar as diferenças e as semelhanças...
A primeira grande semelhança que me ocorre é a existência de casas em ambas as fotografias! Como um piquenique pressupõe ar livre e formiguinhas, não me parece que as placas estejam a assinalar a possibilidade de fazermos um belo piquenique dentro daquelas quatro paredes. Até porque moram lá pessoas que poderiam não apreciar a nossa companhia!
Continuemos à procura... procuremos bem...

Bem parece-me que a grande semelhança é mesmo o facto de, em nenhum caso, haver qualquer espaço dedicado à prática do piquenique, apesar da placa assim o indicar... Que dizem? Vêm alguma coisa?

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A primeira chuvada

Começou ontem mais uma época das chuvas, bem mais cedo em Tete do que noutras zonas do pais.
Chuva muito bem vinda por diferentes razões para diferentes pessoas. Para mim, por causa do cheiro intenso que fica no ar, que penetra pela casa, que se infiltra na alma, que me faz esquecer tudo e sentir, apenas... imaginem um cheiro tão poderoso que transporta em si a terra e as pessoas, os desejos e os sonhos... parece demais? Venham senti-lo...

terça-feira, 4 de outubro de 2011

A praia...

Para o fim a melhor parte! O mar, a praia...
Grandes avenidas ladeadas por casarões, um clube naval com piscina, dois ou três restaurantes em cima do mar! Fez-me lembrar a Granja, com todas aquelas casas antigas em frente ao mar...




Saímos sexta de manhã de Tete e voltamos domingo... sete horas de viagem para cada lado para um dia na praia! Vale a pena, ainda assim, foi um fim de semana:


 Mas ainda bem que hoje é feriado e podemos descansar!!!

Chegamos à Beira!

Assim não custa nada, certo? De repente, os 200km já se percorreram e já estamos todos na Beira!!
Mas antes de lá chegarmos, a título de curiosidade, passamos por um cruzamento, o de Inchope, muito conhecido e movimentado porque seguindo em frente vamos para a Beira, se virarmos à esquerda vamos para o Parque Nacional da Gorongosa e virando à direita vamos para Maputo, a 1000km de distância!
E pronto, começamos a entrar na cidade da Beira por uma avenida de 5km, com separador central e duas faixas em cada sentido!



A Beira é uma cidade grande, tem 450.000 habitantes, com avenidas enormes, praças espaçosas, palácios antigos, prédios... Alguns edifícios (ocupados principalmente por bancos) estão restaurados, mas a maior parte da cidade está muito degradada, por causa da guerra civil e de uma grande cheia em 2000.
Um dos edifícios mais característicos, ou pelo menos o que eu mais queria ver, é o Grande Hotel...



Este edifício, sem água nem electricidade, serve de habitação a 3500 pessoas, que aqui se refugiaram durante a guerra e por aqui foram ficando, vivendo nos quartos, nas salas, nos corredores, nas cozinhas...  Tudo neste hotel foi destruido ou roubado... o piso em parquet foi usado como combustível, a piscina olímpica é um misto de tanque de lavar roupa e banheira, as varandas são as casas de banho... Há árvores a crescer nas paredes... O cheiro sente-se num raio de 200m... Enfim, indescritível...

Passeei pela Beira com o coração apertado, misto de alegria e tristeza, a adorar a cidade mas com vontade de fugir... Bonita, à beira mar, com muito potencial de crescimento, mas cheia de lixo em cada jardim, pobreza em cada esquina...

Deixo-vos algumas imagens das ruas, praças e edifícios, sem mais comentários, para que possam sentir sozinhos...






Eu vou, eu vou, até à Beira eu vou...

Trá-lá-lá-lá....
A viagem é longa, são 600km, atravessamos três províncias, Tete, Manica e Sofala! Vou dividi-la, para não vos cansar!
Comecemos...
Um dos aspectos mais interessantes em todas as viagens que fiz em Moçambique é o facto de, independentemente das províncias que atravessamos e dos quilómetros que percorremos, haver sempre populações ao longo da estrada. Melhor, haver populações só ao longo da estrada. Há sempre pessoas de um lado para o outro, a pé, de bicicleta, a carregar carvão, estacas e baldes com água, a ir e a vir não se sabe muito bem de nem para onde... E sempre com bancas e mercados a vender galinhas e cabras, refrescos e biscoitos, bacias e roupa! De onde vem e como cá chega tanta variedade de produtos, não sei.



À medida que percorremos caminho, vamos deixando para trás a aridez de Tete e vamos entrando em paisagens coloridas, com jacarandás com flores liláses, árvores verdes e frondosas, terra vermelha! Há cor, muita cor...




A temperatura diminui, a humidade aumenta e os espíritos alegram-se!
Chegamos ao Chimoio, capital da província de Manica e economicamente importante por ligar o Zimbabwe ao Porto da Beira.  Além disso, tem condições ambientais óptimas para a agricultura, havendo grandes empresas com enormes plantações!


Todas estas vantagens fazem com que, apesar de estarmos bem no interior de Moçambique, o Chimoio tenha uma população de 250.000 habitantes e infra-estruturas bem desenvolvidas, desde hotéis a grandes supermercados (onde aproveitei para comprar cogumelos frescos e queijo feta e salsichas vegetarianas!!! A alegria total!!!).
Ufa, 400km já estão! Agora só faltam 200!!

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Quando a casa começa a chorar

Já ouvi falar em hiperligações, interdisciplinaridade, multifunções e outras coisas que tais que, simplificando os conceitos, parecem significar conjuntos de algo. Mas que nome dar quando o nosso sistema de abastecimento de água e de fornecimento de energia estão conectados e funcionam em simultâneo? É que sempre que se toma banho em minha casa dois fios de água começam a correr a partir do interruptor da sala...


Sinergia? Simbiose? Parasitismo? O reflexo (in)voluntário de um sistema que se sente subjugado por outro? Tristeza de toda uma estrutura (social)?
Ou, simplesmente, maus profissionais da área da construção?
Felizmente, amanhã vou para a Beira!

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Ponto de Encontro

Começou por chamar-se "Café Paris", nome comum e pouco apelativo para quem deseja beber um café expresso e comer uma natinha ao final da tarde numa esplanada... Agora chama-se "Caliente Apple Coffees"! Muito melhor!
Independentemente do nome que apresente, este é sem dúvida o grande ponto de encontro da sociedade de Tete... Grandes negócios já se fizeram nestas mesas, muitas relações tiveram início debaixo destes guarda-sóis, eternas amizades foram construidas entre o café depois do almoço e a meia de leite à hora do lanche.


Este espaço não é só o mais concorrido - não só por ser único, vos garanto - de toda a cidade, é muito mais que isso, é o mais original de todo o mundo! Pelo menos na apresentação dos pratos...


Esta é ou não é a melhor torrada que já viram? Acompanhada de quatro belos palitos de batata frita e uma estrela do mar de beterraba com rodela de tomate em cama de alface!
Deliciosa...

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Irmãos, ouçam-me!!!

Pelo título da mensagem de hoje imagino que estejam em pulgas para conhecerem todos os milagres que se operaram pelo continente africano neste DIA D!!!!! Pois, realmente, aconteceu hoje um único milagre, mas que foi suficiente para me convencer a ajoelhar perante tal cenário, em sinal de agradecimento... Ouçam-me, então, irmãos... Não aconteceu nada hoje! Depois de publicidade na televisão nacional, de cartazes afixados pela cidade durante dias, de carrinhas a passar pela cidade com colunas a anunciar o grande dia, o dia de hoje amanheceu soalheiro mas acima de tudo calmo e silencioso!
Assim, com o milagre realizado e o sol a brilhar, lá fui eu passear, neste segundo dia de feriado! E hoje vou-vos mostrar o "lado de lá" do Rio Zambeze, onde (quase) todas as empresas estão instaladas.

A aridez continua, nem podia ser de outra forma, ainda não choveu! Mas as casas, encavalitadas nas baixas colinas ou estendidas pelos extensos terrenos, aparecem com um cenário de fundo um pouco diferente. Pedreiras e montes de carvão...





Mas, eis que os milagres começaram a surgir, de forma inesperada! Lá vou eu no carro percorrendo estradas sem fim até que me deparo com 1 hectare de terra abençoada... Porque é mais fértil e mais fresca que toda a terra em volta, segundo me contaram! E porque tem uma placa que o anuncia, segundo eu vi!





Mas sensível fiquei eu quando de repente, olhando em frente, me pareceu ver um pequeno oásis... no meio do nada, um enorme espelho de água! Será que afinal os milagres acontecem??? Aproximei-me... era verdade... uma piscina!


E sim, sou eu a dar umas braçadas!! Que bom!!

Mas os milagres continuaram... e eu cada vez mais a acreditar neles! Na margem do rio há uma esplanada que nos faz viajar para outros locais e gostar de Tete, visto ao longe... Um espaço realmente diferente e bonito, cadeiras de vime, tábuas de queijos franceses (vindos de áfrica do sul, por aqui não há), vinho e champanhe nas prateleiras, música ambiente calma e em volume que nos permite efectivamente conversar... Claro está, como é em cima do rio (e, a existirem, os milagres não são absolutos!) a vida local abraça-nos de uma forma inesquecível, com corpos e roupas a serem lavadas mesmo em frente ao nosso copo de cerveja e mozzarella com tomate!




Irmãos, ouçam-me!!
Depois de tantos milagres, afinal este foi mesmo o Dia D, pelo menos para mim, Divinal! E agora paro de escrever, senão esta será a mensagem mais Difícil de Deglutir!