segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A ilusão de não haver tempo

Domingo, dia por excelência para percorrer mais umas centenas de quilómetros de terra! 500km para almoçar em Ulongué, muito perto da fronteira com o Malawi.
Não que o restaurante ou a comida o mereçam especialmente, não que a estrada de alcatrão demasiado esburacada relaxe, não que a paisagem seja diferente de outras já vistas... Mas por uma estranha vontade de conhecer um pouco mais, de tentar perceber como, ou porque, é que se vive num espaço que varia, no espaço de doze meses, entre o mais árido e o mais húmido possível, num tempo que parece não existir, nem passado nem futuro, mas parado... Parado não porque não haja vida, porque a há, e muita! Mas porque não sabemos de onde vêm nem para onde vão todos aqueles que caminham pela berma da estrada, ao longo da qual não se avistam locais que possam constituir as suas metas. Porque mesmo no centro da vila, com tanta gente e casas e carros, não se percebe o que fazem, além de viver, cada dia parecendo demasiado igual a um outro dia qualquer...

Lá vamos percorrendo caminho...





Numa curva e num local onde a estrada estreita um pouco, avistam-se cerca de vinte crianças que, no meio da rua, acenam aos carros que passam, de mãos estendidas, a pedir. Só quando chegamos percebemos, estão a colocar terra numa série de buracos e vão pedindo a quem passa ajuda pelo trabalho executado...

De repente, começa a chover. De uma forma tão repentina e feroz como rápida, ao ponto de toda a água que cai imediatamente se transformar em vapor, no contacto com o alcatrão que ferve ainda por causa do sol que acaba de ficar escondido. O resultado só ajuda a alimentar a ilusão de estarmos a percorrer terras perdidas...


 E, quase sem darmos conta, chegamos ao nosso destino! Ulongué...
 Sentados na esplanada do restaurante,


enquanto bebemos uma Manica super fresca e comemos batatas fritas e ovos/bife, observamos o que nos rodeia: um casal de macacos enjaulados em dois metros quadrados de espaço quase sem luz; duas meninas que vão passando, uma de bicicleta, outra a pé com uma boneca na mão; uma pick-up amarela rebocada por uma carrinha branca, estrada acima e estrada abaixo, que passaram por nós seis vezes enquanto lá estivemos sentados; o empregado que aparece de vez em quando e arruma um prato, um copo, um talher de cada vez e que vai atirando o lixo para o canteiro em frente... tudo calmo, silencioso, sem pressa...

Antes de voltarmos para casa, e depois de, com a ajuda de uma garrafa de plástico à qual cortamos o fundo, termos abastecido o carro com gasóleo que levamos connosco num bidão (não há onde abastecer os depósitos, só atravessando a fronteira para o Malawi), uma volta de carro pelo centro da vila.




2 comentários:

  1. a estrada não teria uma subida ingreme? talvez a carrinha não conseguisse subir e descesse para ganhar lanço...

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  2. Conclusão: os Deuses estão mesmo loucos... :D

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