... no Parque Nacional da Gorongosa! Sem dúvida!
Quando era mais nova e toda a família viajava de carro, havia um jogo que nos entretinha! Um de nós pensava em alguém conhecido e os outros tentavam adivinhar quem seria através de perguntas do género: "Se fosse animal, era qual?"; "Se fosse flor?", "E se fosse comida?". Já não sou assim tão nova, nem sou um animal (muito) selvagem, mas se fosse, escolheria viver no Gorongosa!!!
Completamente devastado na altura da guerra civil, mortos todos os animais para combater a fome e derrubadas todas as árvores para abrigo e fogueiras, está finalmente a reconquistar esplendor!
A paisagem é deslumbrante, com ecossistemas muito variados; os animais, apesar de ainda serem poucos (adqurir espécies de animais selvagens sai muito caro), já se começam a avistar: uma manada de elefantes, centenas de antílopes, alguns felinos, várias aves, répteis e muitos insectos! Uma serra a servir de fronteira a quilómetros de savana com 1800m de altitude, sem esquecer a forte queda de água gelada a embelezar o território! Comunidades dispersas aproveitam a fertilidade da terra para semear milho, feijão e algodão (em vão se tem vindo a tentar realojá-las fora do parque)... Enfim, uma enorme, pacífica e tranquila miscelânia!
Aqui fica um montão de fotografias! Foi muito difícil escolher!!! Mas aparece de tudo!
grande ou pequena, na cidade ou no campo, de palha ou de cimento, não é importante... o melhor de tudo é ser o sítio que está de portas abertas para todos os amigos, é partilhada, independentemente do local onde se encontra!
sexta-feira, 4 de maio de 2012
segunda-feira, 16 de abril de 2012
O mais belo (e duro) projecto
Depois de tanto tempo e tanto trabalho, finalmente consegui ver o resultado final do grande projecto da minha vida (até aos 30, porque agora há outros!)...
Não imaginam a felicidade que é, depois de um ano em busca da madeira mais barata no meio das montanhas, a comprar (e vender) cimento e ferro, a contratar e despedir serventes, a levantar às cinco da manhã para ir ao rio buscar água para regar os blocos, entre tantas outras aventuras e desventuras e truques de gestão, finalmente ver o resultado final... Ainda de pé, uma sala de informática cheia de actividade!
Não imaginam a felicidade que é, depois de um ano em busca da madeira mais barata no meio das montanhas, a comprar (e vender) cimento e ferro, a contratar e despedir serventes, a levantar às cinco da manhã para ir ao rio buscar água para regar os blocos, entre tantas outras aventuras e desventuras e truques de gestão, finalmente ver o resultado final... Ainda de pé, uma sala de informática cheia de actividade!
sábado, 14 de abril de 2012
Dancemos todos
A globalização (alguma alma caridosa que me envie um pouco disso para cá; parece que não é para todos!) tende a convencer-nos que vemos, sabemos, sentimos, tudo, de todo o lado. A mim parece-me que nos tende a afastar cada vez mais do resto do mundo, porque já conhecemos, porque já sabemos como é, porque já vimos na televisão ou lemos na internet, porque assim não é preciso ir, já estamos avisados, já contribuimos...
E apesar de diversos programas nos mostrarem imagens de áfrica a todo o instante, imagens de vidas duras, hábitos estranhos, bocas desdentadas e moscas, muitas moscas, não me parece que se consiga perceber o que é viver neste continente tão verde nuns cantos e amarelo noutros...
Das coisas que mais me faz "sentir" (sentir só, nem bem nem mal, nem muito nem pouco, sem medidas pré-estabelecidas, nada de particular, aquele sentir que por si só basta, que nos faz ser ao mesmo tempo que sentimos) é ouvir a música e ver quem dança...
Não que Moçambique esteja lotado de grandes artistas no panorama musical, não que o povo seja a expressão de uma técnica perfeita de dança, nada disso! Mas porque é a verdadeira forma de estar de quem é moçambicano, de quem vive a "moçambicanidade". Toda a gente, crianças e velhos, homens e mulheres, uns com os outros, dançam ao som de qualquer música. E mesmo que não haja música, pelo menos audível ao indíviduo "global", há sempre gente a balouçar corpo e espírito na berma da estrada... Por vezes é cómico, noutras dramático, em algumas bastante sensual, mas sempre muito inspirador.
Então, e só hoje porque nunca me lembrei que podia colocar vídeos, aqui ficam três momentos de música e dança... Festas na rua da cidade, festas no quintal de casa, por razões específicas, sem qualquer desculpa... Festas, onde se toca e onde se dança, muito, de preferência.
P.S.: desculpem-me o sermão...
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Imagens...
Quatro fotografias... Sem comentários, dando-vos toda a liberdade para dissertar sobre imagens tão caricatas... Com beijinhos para todos neste fim de semana santo!
Uma da cidade à beira rio plantada, tirada do 5º andar do Hotel Zambeze, mesmo antes de uma poderosa chuvada.
E mais três, de tesouros que nos vão surgindo enquanto passeamos pela cidade...
Uma da cidade à beira rio plantada, tirada do 5º andar do Hotel Zambeze, mesmo antes de uma poderosa chuvada.
E mais três, de tesouros que nos vão surgindo enquanto passeamos pela cidade...
quinta-feira, 22 de março de 2012
Festa de Alheira?? Não, dia da Cidade de Tete!!
Ontem, quando às oito da manhã comecei a ouvir música e muitas vozes, acordei a pensar: "Hoje é o dia da festa de Alheira!!". Mas não, apesar das semelhanças, ontem foi o dia da Cidade de Tete, que festejou 53 anos de vida... Ao longo do dia lembrei-me muitas vezes da minha terra, apesar das semelhanças inicialmente observadas se terem transformado em curiosas diferenças.
No dia anterior, começaram os preparativos: enfeitar as ruas e a ponte com bandeiras amarelas, verdes, vermelhas e brancas (as cores da bandeira moçambicana) e pintar as passadeiras e traços nas estradas. Trabalho meticuloso nesta cidade, que envolve uma fita métrica, várias barras de madeira e latas de tinta de interior...
Em Alheira começamos por ouvir música transmitida por várias colunas espalhadas pela "aldeia"; em Tete a música vem de um palanque montado bem à porta do meu prédio.
Em Alheira, logo pela manhã, começa a Missa, que também é transmitida pelas colunas; em Tete, começam os discursos políticos, com representantes da Organização da Juventude Moçambicana, da Organização da Mulher Moçambicana, do Governo Provincial e do Conselho Municipal, todos sentados no palanque montado bem à porta do meu prédio. Todos eles a apelar à "moçambicanidade" dos moçambicanos, à luta contra a "pobreza absoluta", com vivas à Frelimo e todos a gritar: "Wakula Nhungué!!" ("Tete é uma cidade crescida", mais coisa, menos coisa).
Em Alheira, depois da missa, volta a música nos altifalantes; em Tete, grupos de diferentes bairros, congregações, organizações, cantam, dançam e tocam batuques em frente ao palanque montado bem à porta do meu prédio.
Em Alheira, faz-se a procissão, com andores e fanfarra; em Tete também, mas são os militares que tocam e a procissão é um pouco diferente...
Uma fila de camiões, carrinhas, táxis, máquinas de trabalho, vai passando à frente do palanque, a mostrar a todos o que se faz na e pela cidade... Então, pode ver-se, por exemplo, um camião que mostra o trabalho da recolha do lixo, que envolve carrinhos de mão, pás e máscaras:
Ou outro que mostra como se utilizam duas determinadas máquinas, pertença do conselho municipal:
Depois do almoço, quando tentamos descansar um pouco de tanta folia, é só pousar a cabeça na almofada para logo começar a grande corrida de motas da cidade! São motas, mas parecem aviões! A adrenalina começa a disparar, entre fãs a aplaudir o seu campeão e polícia a controlar a população descontrolada que ameaça colocar-se no meio da pista, onde os atletas atingem velocidades estonteantes de 40km/h!
Acabada a corrida, recomeça a música. Até que, finalmente, anoitece... "amanhã é dia de trabalho", pensamos, "portanto a música vai acabar cedo"... Era meia noite e ainda havia concerto ao vivo, no mesmo palanque, montado bem à porta do meu prédio!
sábado, 17 de março de 2012
Cunbibio
Com doze horas de trabalho por dia, durante seis dias por semana, a convivência com os amigos é muitas vezes esquecida... Portanto, numa tentativa de nos tornarmos o mais normal possível em termos sociais, aos sábados, de quinze em quinze dias, juntamo-nos para um jantar convívio.
Condições de Admissão? Ter entre 30 e 40 anos e não pertencer à classe dos "Grandes Chefes".
A desculpa? Conhecermos melhor pessoas que também vivem e trabalham em Tete.
O objectivo? Tornear a solidão que se pode sentir quando estamos tão afastados de casa.
O resultado final? Muitas garrafas de cerveja, de vinho e de whisky vazias e espalhadas no final da noite.
Há duas semanas, como forma de boas vindas ou castigo (não sei bem), calhou-me a mim cozinhar para todos. Preparei um fantástico Arroz à Valenciana, vegetariano, claro! Apesar de um pouco torrado, o mais grave foi mesmo a quantidade confeccionada... Nove pessoas a comer e ninguém conseguiu repetir. Valeu-nos o queijo e o pão para ajudar a absorver o vinho tinto e demais líquidos consumidos.
Passamos, depois do repasto, ao alpendre, a melhor parte da casa! Conversamos sobre tudo e sobre nada, rimos muito, sobretudo.
Acreditem, se a fotografia tivesse sido tirada no domingo de manhã, não estariamos tão bonitos!
Para hoje foi prometido um jantar árabe, com couscous e dança do ventre! A ver vamos...
Condições de Admissão? Ter entre 30 e 40 anos e não pertencer à classe dos "Grandes Chefes".
A desculpa? Conhecermos melhor pessoas que também vivem e trabalham em Tete.
O objectivo? Tornear a solidão que se pode sentir quando estamos tão afastados de casa.
O resultado final? Muitas garrafas de cerveja, de vinho e de whisky vazias e espalhadas no final da noite.
Há duas semanas, como forma de boas vindas ou castigo (não sei bem), calhou-me a mim cozinhar para todos. Preparei um fantástico Arroz à Valenciana, vegetariano, claro! Apesar de um pouco torrado, o mais grave foi mesmo a quantidade confeccionada... Nove pessoas a comer e ninguém conseguiu repetir. Valeu-nos o queijo e o pão para ajudar a absorver o vinho tinto e demais líquidos consumidos.
Passamos, depois do repasto, ao alpendre, a melhor parte da casa! Conversamos sobre tudo e sobre nada, rimos muito, sobretudo.
Acreditem, se a fotografia tivesse sido tirada no domingo de manhã, não estariamos tão bonitos!
Para hoje foi prometido um jantar árabe, com couscous e dança do ventre! A ver vamos...
sexta-feira, 16 de março de 2012
Uma longa cerimónia
Na madrugada de quarta para quinta feira da semana passada houve falecimento no prédio... A minha vizinha do lado morreu... A partir das 4h da madrugada começaram a ouvir-se choros que só pararam no domingo, três dia depois!
Os familiares começaram a chegar logo de manhã, as cadeiras foram sendo colocadas ao longo do corredor do meu andar, em frente à minha porta, debaixo da minha janela. Nas primeiras três noites não se deitaram, foram ficando sentados nas cadeiras. Nas seguintes, colchões foram sendo colocados nos espaços livres no exterior para se acomodarem os hóspedes.
Num prato à entrada da casa íam sendo depositados uns trocos por quem aparecia, para ajudar a família a pagar o funeral, a alimentar dezenas de pessoas durante tantos dias, para se poderem comprar uns refrescos e umas cervejas.
Na quinta feira o corpo ficou em casa. As mamãs todas a entrar e a sair, a arranjar o corpo, a chorar a defunta. O dia todo, a noite toda... Com cada mamã vem pelo menos uma criança, bem pequenina. Choram também pela noite dentro e pelo dia fora, de fome, de cansaço, de doença, de tristeza, nem sei...
Na sexta feira foi o funeral! Todas as pessoas na caixa das carrinhas foram meus vizinhos por uns dias, todos estiveram no corredor do prédio.
Com esta imagem eu pensei, é hoje que posso entrar em casa sem ter de saltar por cima de pessoas, arrastar vinte cadeiras, é hoje que vou descansar sem choros, sem conversas noite dentro por baixo da janela que só tem rede mosquiteira e nenhum vidro, sem ter de acordar antes das cinco da manhã com a preparação do mata-bicho... Alma ingénua a minha! Uma cerimónia destas não acaba em dois dias, seria uma monstruosa falta de respeito!
No domingo de manhã, bem cedo, lá pelas 6h, as mulheres começaram a cantar, a despedirem-se... e com a música, ouviram-se também os últimos choros a lamentar a perda.
Hoje é sexta feira, os três dias já passaram (normalmente, as cerimónias demoram três dias), os sete dias já lá vão, e ainda há cadeiras pelo corredor, ainda há colchões no exterior, ainda há familiares e crianças de longe, ainda há choros, ainda...
quarta-feira, 14 de março de 2012
Estou a trabalhar!
Bons dias...
Para quem leu a notícia publicada ontem à tarde no blog, esqueçam!!! Mensagens "anónimas" (:D) avisaram-me que seria melhor fazer uma revisão ao texto publicado!
Para quem não leu, óptimo!! Lê hoje e continua...
Então, (re)começando...
Comecei há uma semana como Assistente Administrativa do Presidente de um Hotel em Tete. Acordar cedo passou a ser uma obrigação, portanto, e apesar de sempre acordar cedo, agora custa muito! Depois de um café, lá começam as funções a que o posto obriga, desde pedir aos funcionários chávenas limpas para o gabinete (temos uma extraordinária Nespresso) até aprender a trabalhar com o software de contabilidade e reservas...
Diz o meu recente patrão: "os bebes demoram 1 ano para aprender a andar, portanto não tenhas pressa!". E eu resolvi seguir à risca as suas instruções, com calma, um dia depois do outro...
Quem sabe o futuro não me reserva um hotel, só meu, desde que, claro, em qualquer outra parte do mundo!
Para quem leu a notícia publicada ontem à tarde no blog, esqueçam!!! Mensagens "anónimas" (:D) avisaram-me que seria melhor fazer uma revisão ao texto publicado!
Para quem não leu, óptimo!! Lê hoje e continua...
Então, (re)começando...
Comecei há uma semana como Assistente Administrativa do Presidente de um Hotel em Tete. Acordar cedo passou a ser uma obrigação, portanto, e apesar de sempre acordar cedo, agora custa muito! Depois de um café, lá começam as funções a que o posto obriga, desde pedir aos funcionários chávenas limpas para o gabinete (temos uma extraordinária Nespresso) até aprender a trabalhar com o software de contabilidade e reservas...
Diz o meu recente patrão: "os bebes demoram 1 ano para aprender a andar, portanto não tenhas pressa!". E eu resolvi seguir à risca as suas instruções, com calma, um dia depois do outro...
Quem sabe o futuro não me reserva um hotel, só meu, desde que, claro, em qualquer outra parte do mundo!
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
A ilusão de não haver tempo
Domingo, dia por excelência para percorrer mais umas centenas de quilómetros de terra! 500km para almoçar em Ulongué, muito perto da fronteira com o Malawi.
Não que o restaurante ou a comida o mereçam especialmente, não que a estrada de alcatrão demasiado esburacada relaxe, não que a paisagem seja diferente de outras já vistas... Mas por uma estranha vontade de conhecer um pouco mais, de tentar perceber como, ou porque, é que se vive num espaço que varia, no espaço de doze meses, entre o mais árido e o mais húmido possível, num tempo que parece não existir, nem passado nem futuro, mas parado... Parado não porque não haja vida, porque a há, e muita! Mas porque não sabemos de onde vêm nem para onde vão todos aqueles que caminham pela berma da estrada, ao longo da qual não se avistam locais que possam constituir as suas metas. Porque mesmo no centro da vila, com tanta gente e casas e carros, não se percebe o que fazem, além de viver, cada dia parecendo demasiado igual a um outro dia qualquer...
Lá vamos percorrendo caminho...
Numa curva e num local onde a estrada estreita um pouco, avistam-se cerca de vinte crianças que, no meio da rua, acenam aos carros que passam, de mãos estendidas, a pedir. Só quando chegamos percebemos, estão a colocar terra numa série de buracos e vão pedindo a quem passa ajuda pelo trabalho executado...
De repente, começa a chover. De uma forma tão repentina e feroz como rápida, ao ponto de toda a água que cai imediatamente se transformar em vapor, no contacto com o alcatrão que ferve ainda por causa do sol que acaba de ficar escondido. O resultado só ajuda a alimentar a ilusão de estarmos a percorrer terras perdidas...
E, quase sem darmos conta, chegamos ao nosso destino! Ulongué...
Sentados na esplanada do restaurante,
enquanto bebemos uma Manica super fresca e comemos batatas fritas e ovos/bife, observamos o que nos rodeia: um casal de macacos enjaulados em dois metros quadrados de espaço quase sem luz; duas meninas que vão passando, uma de bicicleta, outra a pé com uma boneca na mão; uma pick-up amarela rebocada por uma carrinha branca, estrada acima e estrada abaixo, que passaram por nós seis vezes enquanto lá estivemos sentados; o empregado que aparece de vez em quando e arruma um prato, um copo, um talher de cada vez e que vai atirando o lixo para o canteiro em frente... tudo calmo, silencioso, sem pressa...
Antes de voltarmos para casa, e depois de, com a ajuda de uma garrafa de plástico à qual cortamos o fundo, termos abastecido o carro com gasóleo que levamos connosco num bidão (não há onde abastecer os depósitos, só atravessando a fronteira para o Malawi), uma volta de carro pelo centro da vila.
Não que o restaurante ou a comida o mereçam especialmente, não que a estrada de alcatrão demasiado esburacada relaxe, não que a paisagem seja diferente de outras já vistas... Mas por uma estranha vontade de conhecer um pouco mais, de tentar perceber como, ou porque, é que se vive num espaço que varia, no espaço de doze meses, entre o mais árido e o mais húmido possível, num tempo que parece não existir, nem passado nem futuro, mas parado... Parado não porque não haja vida, porque a há, e muita! Mas porque não sabemos de onde vêm nem para onde vão todos aqueles que caminham pela berma da estrada, ao longo da qual não se avistam locais que possam constituir as suas metas. Porque mesmo no centro da vila, com tanta gente e casas e carros, não se percebe o que fazem, além de viver, cada dia parecendo demasiado igual a um outro dia qualquer...
Lá vamos percorrendo caminho...
Numa curva e num local onde a estrada estreita um pouco, avistam-se cerca de vinte crianças que, no meio da rua, acenam aos carros que passam, de mãos estendidas, a pedir. Só quando chegamos percebemos, estão a colocar terra numa série de buracos e vão pedindo a quem passa ajuda pelo trabalho executado...
De repente, começa a chover. De uma forma tão repentina e feroz como rápida, ao ponto de toda a água que cai imediatamente se transformar em vapor, no contacto com o alcatrão que ferve ainda por causa do sol que acaba de ficar escondido. O resultado só ajuda a alimentar a ilusão de estarmos a percorrer terras perdidas...
E, quase sem darmos conta, chegamos ao nosso destino! Ulongué...
Sentados na esplanada do restaurante,
enquanto bebemos uma Manica super fresca e comemos batatas fritas e ovos/bife, observamos o que nos rodeia: um casal de macacos enjaulados em dois metros quadrados de espaço quase sem luz; duas meninas que vão passando, uma de bicicleta, outra a pé com uma boneca na mão; uma pick-up amarela rebocada por uma carrinha branca, estrada acima e estrada abaixo, que passaram por nós seis vezes enquanto lá estivemos sentados; o empregado que aparece de vez em quando e arruma um prato, um copo, um talher de cada vez e que vai atirando o lixo para o canteiro em frente... tudo calmo, silencioso, sem pressa...
Antes de voltarmos para casa, e depois de, com a ajuda de uma garrafa de plástico à qual cortamos o fundo, termos abastecido o carro com gasóleo que levamos connosco num bidão (não há onde abastecer os depósitos, só atravessando a fronteira para o Malawi), uma volta de carro pelo centro da vila.
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