sexta-feira, 16 de março de 2012

Uma longa cerimónia

Na madrugada de quarta para quinta feira da semana passada houve falecimento no prédio... A minha vizinha do lado morreu... A partir das 4h da madrugada começaram a ouvir-se choros que só pararam no domingo, três dia depois!

Os familiares começaram a chegar logo de manhã, as cadeiras foram sendo colocadas ao longo do corredor do meu andar, em frente à minha porta, debaixo da minha janela. Nas primeiras três noites não se deitaram, foram ficando sentados nas cadeiras. Nas seguintes, colchões foram sendo colocados nos espaços livres no exterior para se acomodarem os hóspedes.

Num prato à entrada da casa íam sendo depositados uns trocos por quem aparecia, para ajudar a família a pagar o funeral, a alimentar dezenas de pessoas durante tantos dias, para se poderem comprar uns refrescos e umas cervejas.

Na quinta feira o corpo ficou em casa. As mamãs todas a entrar e a sair, a arranjar o corpo, a chorar a defunta. O dia todo, a noite toda... Com cada mamã vem pelo menos uma criança, bem pequenina. Choram também pela noite dentro e pelo dia fora, de fome, de cansaço, de doença, de tristeza, nem sei...

Na sexta feira foi o funeral! Todas as pessoas na caixa das carrinhas foram meus vizinhos por uns dias, todos estiveram no corredor do prédio.


Com esta imagem eu pensei, é hoje que posso entrar em casa sem ter de saltar por cima de pessoas, arrastar vinte cadeiras, é hoje que vou descansar sem choros, sem conversas noite dentro por baixo da janela que só tem rede mosquiteira e nenhum vidro, sem ter de acordar antes das cinco da manhã com a preparação do mata-bicho... Alma ingénua a minha! Uma cerimónia destas não acaba em dois dias, seria uma monstruosa falta de respeito!

No domingo de manhã, bem cedo, lá pelas 6h, as mulheres começaram a cantar, a despedirem-se... e com a música, ouviram-se também os últimos choros a lamentar a perda.

Hoje é sexta feira, os três dias já passaram (normalmente, as cerimónias demoram três dias), os sete dias já lá vão, e ainda há cadeiras pelo corredor, ainda há colchões no exterior, ainda há familiares e crianças de longe, ainda há choros, ainda...

5 comentários:

  1. Olá Inês!
    Lamento a morte da senhora.Era mãe da Camila? Os costumes são diferentes, mas são eles, também, a identidade dos povos.
    Beijos

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  2. As relações familiares entre as dezenas de habitantes daquele pequeno apartamento são difíceis de compreender e definir!
    Disseram-me que ficam todos em casa do morto para que ele "ressuscite"... Se funcionar, eu aviso!

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  3. Eu também tenho 3 dias de festa... mas de aniversário!

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  4. Mas pelo menos não incomodas, muito, os vizinhos!! Beijinhos

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