terça-feira, 18 de outubro de 2011

Bons momentos

Salama! Que saudades tinha eu de ouvir falar macua!

Estive de férias, mas com o único objectivo de vos mostrar um pouco mais desta minha casa que é Moçambique. Felizmente, esta reportagem incluiu uma semana a passear pelas margens do Índico para vos guiar pelas praias mais bonitas do mundo com o mar a 27ºC, por património mundial da Unesco a ser lentamente recuperado, por estradas de terra vermelha acompanhadas por enormes cajueiros, por outras estradas já alcatroadas que funcionam essencialmente como tanque de esfregar roupa, por vestígios da passagem dos portugueses, há muitos anos, a serem substituídos pela presença de "outros brancos"...

Comecei em Fernão Veloso, com praias que aproveitam a enorme baía de Nacala, cidade que alberga um dos maiores portos naturais do mundo!


Aqui se estão a construir um aeroporto internacional e um porto novo, tudo por causa do carvão que se explora na minha cidade, Tete!

Continuei um pouco para sul e fui ter às Chocas Mar, mais precisamente à praia da Carrusca!


São quilómetros de areia branca e mar azul, um paraíso à moda antiga! Lagosta, camarão tigre e camarão jumbo, tubarão, garoupa, peixe papagaio, peixe pedra, caranguejo... um não mais acabar de belos e, aparentemente, saborosos animais aquáticos, a preços irrisórios! Lá consegui arranjar uma matapa de mandioca e um caril de vegetais para me alimentar. Pelas dunas, bungalows virados para o mar, com alpendres decorados com camas de rede e enormes coqueiros!
Sobram apenas três pedaços de terra, tudo o resto foi já comprado, "por brancos". A ilha que se vê ao fundo na fotografia foi comprada, "por um branco", e lá está a ser construído um restaurante!
Por aqui há também uma das que clama ter sido a primeira igreja a ser construída em Moçambique, com um poço de água ao lado que serviu para saciar a sede de tantos navegadores, segundo reza a história! A outra, e parece-me que mesmo a primeira, está na Ilha de Moçambique, mas já lá vamos...


O único motivo pelo qual não deixei a Carrusca com tristeza foi por ir para a Ilha de Moçambique, pedaço de terra mágico, declarado Património Mundial da Unesco em 1993, um ano depois do final da guerra civil.
Entramos na Ilha, que tem 3,5km de comprimento por +/- 400m de largura, por uma ponte com apenas um sentido (de cada vez!) e, depois de a atravessar, apercebemo-nos de uma pormenor: a Ilha está dividida por uma linha, ficando a norte a Cidade de Pedra e Cal e a sul a Cidade de Macuti. Dos 17 mil habitantes da Ilha, quase todos estão na parte sul.


Na Cidade de Pedra e Cal, ao estilo europeu, há edíficios senhoriais, pé direito altíssimo, imponentes portas de madeira... Muitos ainda abandonados, outros já restaurados e tranformados em hotéis ou restaurantes, mas todos já comprados. Todos os habitantes e repartições do estado vão ser recambiados para o continente e a ilha vai servir exclusivamente para turismo.

A Cidade de Macuti (macuti refere-se à cobertura das casas, em palha) foi construída abaixo do nível das águas do mar, porque foi o local de onde toda a pedra e terra necessárias à construção da Cidade de Pedra e Cal foram retiradas. Como não há saneamento nem canalizações, esta parte da Ilha exala um cheiro intenso que se sente por toda a parte, as pessoas usam a praia como casa de banho, lavandaria, cozinha...

Porque é que sinto a Ilha tão especial? Não sei se consigo explicar... não sei se pela história que encerra cada pedra que cai das paredes, se pela mistura de costumes e gentes em cada esquina, se pela tentativa de equilíbrio da própria terra entre o obscuro degradante e decadente e a luminosidade de um renascer cultural e social... Porque entre ruínas se veem museus, porque no meio de praças com calçada portuguesa se veem grupos de mulheres pintadas com msiro, porque num terraço iluminado por velas jantamos a ver nas ruas crianças esfarrapadas a jogar ao berlinde...

Ficam algumas fotografias...







9 comentários:

  1. Grande narradora de viagens...e que bonito.

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  2. … o Indico inspirou-te definitivamente !!!

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  3. Elsa, um elogio? Muito obrigada!! :D:D Está a ver que nem tudo é mau por aqui?

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  4. Zé, resta esperar que Tete com o seu Zambeze o continue a fazer...

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  5. Elogios, só quando os merece...:-)
    Aguardamos com ansiedade a publicação do livro da viagem.

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  6. Incrível como pelas palavras certas de quem sabe e sente intensamente as coisas se conseguem absorver inteiramente os cheiros e os ambientes...
    Quase nos sentimos na corte a ouvir os grandes navegadores!!!
    Beijinho

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  7. Paula, obrigada!! Nada como vir cá dar uma espreitadela, hã?? Beijinhos

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  8. Nestas viagens,gosto muito da forma linda e concisa com que nos levas a "percorrer" essas terras. Eu já me teria perdido à conversa com alguém ou contando qualquer história a propósito de algo ou de nada!! E a propósito, algumas destas fotos levam-me a S.Tomé e Principe.
    bjnho
    Ci

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  9. Ci, são essas histórias que tornam cada viagem especial e diferente... continua a perder-te, parece-me bem bom!!

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